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E a tradição continua

Minha avó deu ao Jorge o mesmo presente que entrega aos netos há décadas.

O envelope era igual aos que minha avó me entrega desde que eu era criança. Era branco, com um cartão desses que se compram no mercado e R$ 100 lá dentro. Só que, dessa vez, não era para mim.

No cartão, ela escreveu:

Da: Bisa Vó Clarisse
Para: Jorge

O “Bisa” foi acrescentado depois. Ela deve ter escrito “Vó Clarisse” primeiro e só então lembrado que, para o Jorge, ela era a Bisa Vó Clarisse.

Era o aniversário de três anos do Jorge. Minha avó Clarisse chegou à festa apoiada em uma bengala, caminhando com dificuldade. Ela tem 92 anos. Assim que chegou, me entregou o envelope, sorriu e disse:

— O meu presente para o Jorge.

Eu já sabia o que tinha dentro antes mesmo de abrir. Há décadas, minha avó distribui envelopes assim para todos os netos. Pelo que me lembro, recebo o meu desde os dez anos. Nos últimos três, ela passou a preparar um para o Jorge também, seu único bisneto.

Minha avó sempre foi forte, calma e tranquila. Dessa vez eu a vi frágil. Talvez aquele fosse o último envelope que ela entregaria. Meu pai também se emocionou. Ele é parecido com ela nesse jeito de ser forte, calmo e tranquilo, e acho que sentiu a mesma coisa que eu.

Não abri o envelope na festa porque sabia que ia chorar e não queria chorar ali. Só abri quando cheguei em casa. O Jorge já estava dormindo e eu estava sozinho.

Chorei um choro quieto e lento. As lágrimas rolaram devagar pelo meu rosto, meu nariz ficou entupido e eu quase não fiz barulho.

O que mais me pegou foi a possibilidade de perder minha avó. Ao mesmo tempo, fiquei muito feliz de ver aquele gesto chegar até o Jorge.

Tirei uma foto do envelope e mandei para o grupo de WhatsApp dos meus primos. Escrevi só:

E a tradição continua.

Cartão verde endereçado pela Bisa Vó Clarisse ao Jorge, com uma nota de R$ 100 sobre ele. A foto que mandei para o grupo dos meus primos.

Alguns riram. Acho que outros se sentiram abraçados.

Guardei o cartão e o envelope na cômoda do Jorge. Quero deixar os dois lá até ele crescer e conseguir entender.

Quando esse dia chegar, vou contar de onde vieram aqueles R$ 100 e por que tirei uma foto antes de guardar tudo.